A velha manta de lã
- Lidia Amarante

- May 29, 2020
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Tecida em tear com lã tosquiada, cardada e fiada por mãos calejadas de tanto trabalhar a velha manta de lã que em tempos idos aqueceu tantos corpos, permanecia esquecida dentro do armário.
Sem saber bem o que fazer com ela, mas sem coragem de me desfazer de si, dei comigo a lembrar uma senhora idosa numa feira de antiguidades, onde tantas vezes me perco, que levantou o rosto e os olhos encheram-se de lágrimas, me confessou terem sido bordados por ela, durante horas noite dentro, para o enxoval do filho, mas que lhe tinham sido devolvidos coma mensagem que dispusesse dos mesmos porque para eles não tinha grande utilidade, gostavam de coisas mais simples e modernas. Fiquei sem palavras e destroçada a ver a dor da Senhora, mas a mensagem passou e assim comigo ficou sempre a falta de coragem de me desfazer de pequenas coisas cuja afectividade possa estar presente.
Decidida retirei-a do armário, esteve uns dias no sofá até que com pequenos pedaços de lã colorida e sem limitações ou esquemas pré-feitos ganhou uma nova vida.
Agora a velha manta de lã, pequena para as camas actuais, não aquece o corpo, mas aquece-me os pés e conforta-me o coração.






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